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Itapira, 30 de Novembro de 2020
Artigo
13/10/2020 | Luiz Santos: A Reforma e a pregação

Uma das coisas que devemos celebrar dentro dos quinhentos e três anos da Reforma Protestante, sem dúvida, é a redescoberta do ministério da pregação da Palavra de Deus. Uma espécie de avivamento da pregação bíblica nos ajuntamentos solenes da Igreja. Não é verdade que havia nenhuma pregação bíblica na igreja antes da Reforma. Absolutamente. Grandes pregadores marcaram a história do cristianismo desde ao pais da Igreja até o período próximo dos dias de Lutero. O que acontecia, entretanto, é que esses grandes e eminentes pregadores geralmente estavam nas ilustres catedrais, nos grandes centros urbanos, nas cidades mais importantes e nas Universidades. Pelas aldeias e vilas, nas cidades de menor expressão e nas paróquias sem grande projeção ou não haviam padres ou quando estes estavam presentes nem sempre eram suficientemente treinados em Teologia, Bíblia, resumindo: a cura pastoral, a celebração dos sacramentos e a manutenção das devoções aos santos e anjos. Mesmo nos grandes centros, mais próximo aos dias da Reforma, as pregações eram muito empoladas, recheadas de citações dos Teólogos, Filósofos da antiguidade e quando não sermões inteiros eram lidos, produzidos há muitos séculos, em conformidade com o calendário litúrgico. Assim, a pregação perdia muito da sua utilidade espiritual e moral e pouco ou quase nada insidia concretamente sobre as necessidades dos homens e mulheres daqueles dias. Um resultado inevitável desse período sem a exposição das Escrituras foi o ressurgimento do paganismo, o aparecimento das mais grosseiras superstições e a disseminação de idolatrias de toda sorte. Tempos sombrios, de escravidão espiritual e de baixíssimo nível moral. No centro das redescobertas da Reforma Protestante está a pregação das Escrituras, a exposição do texto bíblico e a sua aplicação às situações concretas da vida. A pregação dos reformadores, de maneira geral, embora demonstrasse erudição, vasto e sólido conhecimento humanista e teológico, era uma pregação simples e direta. Por simplicidade se entenda a escolha das palavras que melhor se adequassem aos ouvintes, com ilustrações retiradas do contexto em que estavam imersos e, sobretudo, com claras indicações de como responder em fé e obediência ao que o texto bíblico dizia. Mais, os principais reformadores desde cedo se preocuparam em preparar uma grande quantidade de pregadores, leigos ou ordenados, que pudessem ocupar os púlpitos das regiões que abraçavam os ideais reformistas. Assim, houve uma popularização e, ao mesmo tempo, universalização da prática da pregação. Os reformadores mexeram inclusive na arquitetura dos templos para que a pregação ocupasse o lugar de maior importância e destaque na celebração dominical. O altar mor que antes presidia a nave da igreja, cedeu o seu lugar para um púlpito alto, digno, centralizado e uma grande Bíblia repousava sobre o móvel de onde a Palavra seria lida. Conquanto nunca houvesse a intenção de promover um “culto à Bíblia”, esse lugar de destaque servia para inculcar nos crentes que o ápice da adoração não seria mais a “celebração dos santos mistérios” (a missa), mas a leitura em voz alta das Escrituras Sagradas e a clareza da audição da pregação do texto lido. A Pregação seria o ponto alto da vida em comunidade. Assim, podemos afirmar que o ministério da pregação foi o meio ordinário usado por Deus para forjar um novo homem e uma nova civilização; a reforma foi tão profunda que mesmo novos valores passaram a fazer parte do dia a dia da sociedade. O valor e a sacralidade do trabalho e o desmascaramento da falsa piedade de se viver de esmola e ou o cultivo da pobreza como virtude. Com a pregação da autoridade suprema das Escrituras e com a proclamação da autonomia da razão, contra a da ditadura da religião papal e todo o seu aparato de dominação por meio da Igreja e no encontro dos ventos da reforma e da renascença, aparece o ‘embrião’ daquilo que viria a ser a democracia moderna e os direitos do cidadão. Sem falar da recuperação da santidade da sexualidade humana e a vocação à santidade no matrimônio. O celibato e a virgindade consagrada dos monges, freiras e padres eram o único ideal possível de santificação. O sexo era entendido como uma espécie de pecado consentido, um tipo de mal necessário à procriação e o estado matrimonial como um estilo de vida cristã de segunda categoria. A pregação da Bíblia devolveu à sexualidade humana e ao casamento a dignidade com a qual Deus os estabeleceu desde a criação. Então, não houve área da vida em que a Palavra de Deus não cumprisse a sua missão de reformar, reestruturar e ressignificar. Ainda hoje e, para dizer a verdade, mais do que antes, precisamos redescobrir a primazia da pregação em nossas reuniões de adoração. Investimos tempo e recursos preocupados com o louvor, a estética e a tecnologia e nem sempre nos damos conta de que tudo o que a Igreja realmente tem necessidade é de um homem ‘pegando fogo’, com uma Bíblia nas mãos, falando com autoridade espiritual e a Palavra de Deus fará todo o resto. Não há que se esperar qualquer bênção verdadeira e duradoura para a Igreja e a sociedade se a loucura da pregação não estiver virando todas as coisas de ponta cabeça e transtornando o mundo, como nos dias dos apóstolos (At 17.6), como nos dias da Reforma. Não vá na igreja mais perto da sua casa. Vá em uma igreja mais perto da Bíblia!

Reverendo Luiz Fernando é pregador da Palavra na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

Fonte: Luiz Santos

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