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Itapira, 09 de Agosto de 2020
Artigo
01/07/2020 | Luiz Santos: Um povo peculiar

A pandemia da COVID-19 forçou-nos a enxergar a realidade sem maquiagem, sem racionalismos ou autoengano. De uma hora para outra tomamos conhecimento de coisas que já sabíamos, mas que de alguma maneira, fingíamos que elas não estavam aí, embora estivessem bem debaixo do nosso nariz. Poderíamos começar pela abissal desigualdade social endêmica, estrutural, existente no Brasil. Assistimos de camarote o drama de comunidades inteiras nos grandes centros urbanos, sem saneamento básico, sem água potável e para a necessária limpeza da casa e higiene pessoal, sobretudo das mãos nesses dias onde a assepsia pode significar a diferença entre a vida e a morte. Os moradores dessas mesmas comunidades foram impedidos de manter minimamente a quarentena porque se viram forçados a sair para buscar o pão de cada dia e nem mesmo puderam fazer o desejável distanciamento social, quer pelas minúsculas adaptadas moradias nos morros e áreas de risco (com a amontoada presença de uma dezena de pessoas onde deveriam caber três, quatro com boa vontade), quer pela lotação desumana do transporte público. E o que falar da brutal diferença entre o ensino público e o privado, de maneira especial no que diz respeito aos ensinos fundamental e médio? Sem o mesmo acesso à tecnologia e sem as demais condições gerais, um contingente inimaginável de adolescentes e jovens viram o seu futuro seriamente comprometido. De uma hora para outra cerca de 40 milhões de pessoas surgiram do ‘nada’ em busca do auxílio emergencial. Foram chamados em um primeiro momento de ‘desbancalizados’, depois foram identificados como ‘força econômica informal’ e, por fim, ‘invisíveis’. O fato é que esses 40 milhões sempre estiveram aí e quem deveria zelar por eles, nem sabia da sua existência, a saber, o Poder Público. Outra realidade escancarada pela pandemia, além da ineficiência do Estado, essa já conhecida, foi a nauseabunda insuficiência moral e espiritual dos nossos líderes maiores (o vídeo da famigerada reunião ministerial do dia 22 de abril em Brasília diz muita coisa a respeito). Estamos sendo conduzidos, em um dos momentos mais críticos da história, por verdadeiros líderes nanicos, pigmeus (que os pigmeus me perdoem). Foram capazes de gerar crises desnecessárias, agravando ainda mais a dor e o drama dos brasileiros numa guerra de vaidades sem fim. Ciúme, inveja, ignorância crassa, negacionismo científico, narrativas alternativas descoladas da realidade, intolerância e mentiras sobre mentiras assolam o país, como se não bastasse a tétrica contagem de óbitos todos os dias. Não podemos deixar de citar que um grande contingente de cristãos católicos e evangélicos (entre os evangélicos de todas os matizes, sem exceção), estão embriagados pelo poder, pelo status quo, pelas benesses de estar ao lado de quem ‘manda’. Com isso, abriram mão de seu privilégio profético para dar apoio incondicional e desavergonhado a um projeto político que se apresentou como messiânico. Não ignoro o fato de que anos de uma esquerda agressiva e que fazia questão pública de aviltar e insultar os fundamentos da fé cristã no campo da moral, sobretudo, provocou esta ressaca e esta reação acentuada dos cristãos em geral. Enfrentamos uma pandemia viral ao mesmo tempo que devemos lutar contra uma epidemia de crise moral. Não é verdade que o distanciamento social e a quarentena nos impeçam de reagir mais fortemente a tudo isso. Mentira! A epidemia só revelou o nosso comodismo aburguesado, a nossa religião de consumo, a nossa adoração cosmética e a nossa participação política na ordem do conveniente, como verdadeiros oportunistas, aqueles que só vão ‘na boa’. Como em toda crise, como ensina o padrão bíblico e o testemunho da história, Deus sempre preserva um ‘resto’, um remanescente do seu povo. Homens e mulheres que não dobram os joelhos a Baal (1 Reis 19.18), que não trocam a sua primogenitura por um prato de lentilhas (Gn 25. 21-34), que não cedem o seu direito à herança dos santos para compartilhar dos despojos dos ímpios. Então, em toda crise uma purificação é feita na Igreja, as coisas ficam um pouco mais nítidas e desembaçadas, passamos a nos enxergar e a enxergar a comunidade. O juízo começa pela Igreja (1 Pe 4.7), sempre, esse é o padrão bíblico. É hora de rever a nossa condição como povo de Deus. A Igreja deve ser a antítese do mundo e da sociedade. Essa antítese se manifesta quando o nosso procedimento decorre de uma mente saturada pela Palavra, uma alma santificada pela presença do Espírito e um coração transbordante do amor de Deus. De homens e mulheres nessa condição surgem uma santa indignação contra as criminosas desigualdades sociais, um consciente e consistente engajamento responsável pela transformação da realidade, um envolvimento intencional de ocupar espaços de poder e influência despidos de vaidade e revestidos do senso de missão e testemunho do Reino. Um povo assim, não precisa necessariamente ser contado aos milhares, mas havendo ainda que poucos, mas verdadeiros representantes do povo de Deus, já deixaremos de ser farinha do mesmo saco e, pela graça de Deus, seremos como o fermento que leveda toda a massa.

Reverendo Luiz Fernando dos santos é pastor na Igreja Presbiteriana Central de Itapira

Fonte: Luiz Santos

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