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Itapira, 20 de Janeiro de 2020
Artigo
29/10/2014 | Padre Pires: Antigamente em Itapira (apud Carlos Drummond de Andrade)

Antigamente os meninos brincavam nas ruas e soltavam maranhão, faziam caçapas para jogar bolinhas de gude e quando chovia construíam poças onde enfiavam um canudinho de ma­mão para formar uma biquinha. Enquanto os mais habilidosos construíam carrinhos de rolimã outros catavam tampinhas de garrafa para usar como estrela de xerife ou então raspavam caroço de jatobá no cimento até que ele virasse um dadinho. Alguns amarravam arame em duas latas de óleo e saiam andando em cima delas como os equilibristas de perna de pau. Outros pegavam duas latas vazias de massa de tomate, prendiam um barbante comprido entre elas e brincavam de telefonar.

Antigamente as meninas abastadas tinham bonecas de porcelana enquanto as pobres embalavam umas de pano ou de sabugo de milho. Nas ruas elas batiam petecas feitas de palha de milho seca e penas de galinha. Nas soleiras das portas jogavam pedrinhas costuradas com retalhos que enchiam com arroz. Testavam a destreza das mãos nos bilboquês e das pernas pulando amarelinha. Brincavam de roda e de casinha e jogavam uma bola na parede, dizendo: “ordem, sem lugar, sem rir, sem falar, um pé, o outro, uma mão, a outra, bate palmas, pirueta, trás prá frente, sete quedas”.

Antigamente as crianças tam­bém brincavam de esconde-escon­de e o que ia pegar era escolhido numa roda onde, todos graves e sérios com as mãos fechadas e punhos estendidos entregavam­-se à sorte que os escolhia através do “pomponete pontapi tapetá perrugem pomponete pontapi tapetá pegri”. Ou então faziam fila e passavam debaixo de um arco formado pelas mãos de duas crianças que cantavam “passa passa ladroa o último há de ficar”. Quando alguém era preso perguntavam a ele se queria azul ou amarelo e assim a fila ia diminuindo até todos estarem atrás de uma das duas crianças do arco. Então elas viravam para os outros e batiam palmas gritando: “céu, céu, céu, inferno, inferno, inferno”. Antes as duas já haviam combinado qual a cor de cada destino.

Os bebês ficavam no colo dos adultos que os balançavam dizendo “serra, serra, serrador, serra o papo do vovô”. Quando riam bem alto era por causa da cosquinha depois de “cadê o toicinho daqui, o gato comeu, cadê o gato, tá no mato, cadê o mato, o fogo queimou, cadê o fogo, a água apagou, cadê a água, o boi bebeu, cadê o boi, tá no pasto, cadê o pasto... tchuc tchuc tchuc”. Quando não tinham brinquedo nenhum os meninos viravam cambota ou então an­davam de fasto.

Antigamente as crianças iam ao grupo, depois faziam o curso de admissão e entravam no ginásio. Poucos chegavam até o clássico, o científico ou o normal. Alguns iam para a escola de comércio e viravam contadores. No grupo, antes de começar as aulas, os alunos formavam filas e cantavam o Hino Nacional, o Hino à Bandeira e o Hino da Independência (que os engraçadinhos parodiavam com “japonês tem cinco filhos...”). As classes eram separadas entre meninos e meninas, todos tinham de usar uniforme e os pobres eram da caixa e ganhavam material escolar e uma caneca de um leite fedido na hora do recreio. Os que podiam levavam de lanche pão com mortadela (uma iguaria) e os outros pão com ovo, pão com banana ou com banha.

Antigamente os alunos aprendiam a ler numa cartilha chamada Caminho Suave e quem não conseguia repetia de ano e tomava uma sova em casa. Os mais caprichosos encapavam os cadernos e livros com papel manteiga e nas aulas de trabalho manual os meninos trançavam fiotex e faziam pássaros de chi­fre de boi enquanto as meninas faziam bordados. Alguns tinham tempo e dinheiro para fazer cur­so de datilografia na Associação Comercial e depois exibiam or­gulhosos um papel onde estava escrito “asdfg, asdfg, asdfg, çlkjh, çlkjh, çlkjh”.

Não escola os alunos toma­vam palmadas e coques e existia bullying mas ele era tão normal que os professores bullyingui­navam mais que os alunos. O seu Fenízio Marchini chamava os alunos negros de “macacos” e os da roça de “capiaus fedidos” e a classe inteira ria e hoje ele é nome de rua e de escola.

Antigamente as crianças to­mavam K-Suco, os adolescentes Grapette (quem bebe repete) e os moços cuba-libre antes de dançar com o rosto colado. Aos domingos no jardim se vendia paçoquinha, quebra-queixo, pipoca, algodão doce e raspadinha de gelo. Os bares vendiam balas Chita, Pipper, dadinhos da Dizziolli e aos mais privilegiados sonho-de-valsa.

Antigamente as mamães pas­savam nenê-dent nas gengivas das crianças, violeta genciana quando dava feridinha na boca e Biotônico Fontoura para fraqueza. Queimaduras eram aliviadas com pasta de dente e as espinhas com pomada Minâncora. Tomar vacina aterrorizava a muitos que depois mostravam orgulhosos a marca no braço. Para as dores os remédios mais consumidos eram Veramon, Cibalena e Cafiaspirina. Os meninos tinham curiosidade de saber o que as mulheres regulavam com um tal de Regulador Xavier.

Antigamente em Itapira tinha três cinemas: Cine Rádio, Cine Paratodos e Cine Teatro Américo Bairral. O Mazzaropi fazia sucesso e para os mais sofisticados no Bairral passava filme do Glauber Rocha, Antonioni e festival de cinema russo, coisa que hoje só acontece nas grandes cidades em cinemas de arte. O filme mais escandaloso que passou em Itapira na década de sessenta foi “Os cafajestes”, de Ruy guerra, e tinha sessão separada para homens e mulheres. A cena em que a Norma Bengel caminha nua (de costas, claro) na praia, rendeu inúmeras especulações e devaneios nas noites solitárias dos rapazes de Itapira.

Antigamente se assistia mais televizinho do que televisão e todos choravam quando o Alber­tinho Limonta e a Isabel Cristina viviam suas desventuras sob a proteção de mamãe Dolores. As televisões mais chiques eram de 26 polegadas e prá mudar de canal era necessário levantar-se da cadeira e virar uma rodinha. Nas tardes de domingo todos se ligavam na Record para ver o Roberto Carlos gritar “É uma brasa, mora” e o Ronnie Von jogar as franjinhas pro lado enquanto cantava “Meu beeeeeem”. As crianças gostavam do Topo Gigio e as mulheres adoravam o “Almoço com as estrelas” com Airton e a Lolita Rodrigues. Na televisão também tinha reclames que hoje se chamam comerciais. Quem era mais pobre tinha antena portátil que era duas varetas em forma de V e precisava por um pedaço de Bombril na ponta para pegar melhor.

Antigamente no rádio a Wan­derléia fazia sucesso interrom­pendo um casamento, a Rita Pavone pedindo um martelo e o Odair José dizendo prá sua namorada parar de tomar a pí­lula (uns rapazes comentavam: “mas que homem tonto”). Quase todos os meninos sabiam de cor a letra de Bat Masterson e os mais saidinhos cantavam: “Eu era neném, não tinha talco, mamãe passou açúcar em mim”. As moças cantavam “Dominique, nique, nique” e todos se arrepiavam quando o vozeirão do Agnal­do Rayol começava: “Branca e radiante, lá vai a noiva, logo a seguir, o noivo amado”. Algumas mães desligavam o rádio quando o Nélson Gonçalves convidava: “Fica comigo esta noite, que não te arrependerás...”. Quem tinha vitrola podia comprar um compac­to simples, um compacto duplo ou então um LP.Antigamente os moços quando saiam passavam brilhantina ou gumex no cabelo. As moças punham bobs e quando faziam coque passavam laquê para não desmanchar. Tomavam banho com sabonete Eucalol e quando as combinações foram caindo de moda passaram a usar um vestido chamado tubinho. Os bailes se chamavam “festas dançantes” e os dos ricos era no clube XV, da classe média no Cen­tro Comércio e Indústria e dos pobres na Sociedade Operária. Os três clubes proibiam a entrada de pretos e eles dançavam num salão que os brancos chamavam de “Panela de pressão”.

Antigamente os senhores usavam calça de tergal e camisa volta ao Mundo e os moços calça boca de sino e no inverno japona. O jeans foi entrando na moda mas chamava-se calça rancheira e era o máximo usar uma com quedes.

Antigamente os meninos liam gibis, as moças Capricho, Grande Hotel, Ilusão e Sétimo Céu e os homens O Cruzeiro (que chegou até a fazer uma reportagem sobre aparições do diabo em Itapira). Revistas com mulheres peladas nem pensar, mas clandestinamente corriam nas mãos dos rapazes umas histórias em quadrinhos com desenhos de sexo explícito e que a turma chamava de “Ca­tecismo”. Os desenhos eram de Carlos Zéfiro.

Antigamente as crianças tinham dordolho e os adultos pegavam constipado quando saiam no sereno e se tomassem vento encanado era resfriado na certa. Se alguém depois de comer tomasse banho teria con­gestão ou se olhasse no espelho de barriga cheia estupor. Quem tivesse tomado leite e logo em seguida comesse manga tinha morte súbita.

Antigamente as mulheres coavam café no quadô, fritavam ovos no tachinho, faziam arroz na caçarola e cozinhavam feijão no caldeirãozinho. Nas casas dos mais prevenidos havia sempre uma espiriteira para casos de urgência quando não dava tem­po de acender o fogão de lenha. Muitos iam nos Prados buscar lenha e catar cavaco era uma ocupação, não uma posição sexual. Nas horas da refeição, além do arroz e feijão, a mistura podia ser manjuba, cambuquira, serraia ou ovo frito. As crianças comiam de tudo e não faziam manhã senão apanhavam.

Antigamente as mulheres lava­vam roupa com sabão em pedra e depois de esfregar punham para quarar. O primeiro sabão em pó que apareceu por aqui se chamava Rinso e havia uma pedrinha azul que se chamava anil e até hoje não consegui descobrir para que servia. Quem tinha soalho de madeira em casa passava palha de aço grossa, vermelhão, cera Parquetina e depois dava brilho com uma flanela que era colocada em baixo do escovão. As mulheres emagreciam sem precisar fazer caminhadas e ginásticas porque as tarefas de casa se encarrega­vam de queimar calorias extras. Além do mais naquele tempo os homens preferiam as mais cheinhas.

Antigamente, quem viajava por perto ia de jardineira e para mais longe de trem, (tinha de fazer baldeação em Campinas). As pessoas “montavam” em carros que se chamavam Simca Chambord, Vemaguete, Renault Gordini ou Aero Willis. Os mais exibidos tinham rabo-de-peixe e botavam gasolina azul, mas o povo do sítio vinha na cidade de carrocinha e perto da estação de trem tinha um bebedouro para os cavalos. Mas tudo isso era antigamente. Os mais velhos suspiram “que saudades” e os mais novos comentam “credo, que vida!”.

Fonte: Padre Pires

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