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Itapira, 20 de Janeiro de 2020
Artigo
22/05/2014 | Padre Pires: FALANDO DE POLÍTICA
 
(Escrito por José Antônio Pires de Almeida dia 22 de maio de 2014)

De uns tempos para cá venho propondo-me a não mais escrever, falar ou debater assuntos de política porque, sem querer ser pretensioso, mas sendo, está cada vez mais difícil encontrar interlocutores consistentes. Mas creio que, no estágio atual de minha vida, se me recusar a exercitar os neurônios que ainda me restam posso fechar definitivamente a firma por falência completa. E política, ao lado de filosofia, teologia, artes, culinária e fofoca sobre celebridades são as poucas paixões que me restam.

Mas alguns dos motivos de meu projeto de desistir de falar de política são os seguintes:

1.    Eu vivi a fase dos sonhos socialistas dos anos sessenta, acompanhei a derrocada do marxismo-lenilismo-maoismo como solução política para os problemas da América Latina e participei intensamente dos primeiros anos do PT. Além do mais sempre acompanhei com interesse a imprensa num arco que vai da revista VEJA até a CARTA CAPITAL, para ficar nos exemplos atuais. Mesmo que nas minhas crises existenciais essas experiências não tenham sido de grande valia pelo menos me considero gabaritado para dar palpites sobre o assunto.

2.    Os conteúdos da maioria dos debates são desprovidos de objetividade. Aquelas clássicas frases generalizantes e vazias como “Política não se discute”, e outras como “Todos os políticos são ladrões”, “Eu sou malufista (ou brizolista, janista, serrista, lulista, tanto faz porque quaisquer dessas definições não querem dizer nada)”, “Com esses políticos que temos o Brasil não vai prá frente”, “Tenho ódio do Lula (ou do Fernando Henrique)”. Que tédio!

3.    Em relação ao ser humano e às instituições humanas eu não sou tão pessimista quanto Santo Agostinho e Calvino e nem tão otimista quanto Rousseau e Gandhi. As instituições políticas expressam a realidade humana e social e não estão imunes às mesmas fragilidades que essas têm. Acredito até que hoje, no caso do Brasil, o nível de corrupção é bem menor do que no passado. A diferença é que hoje aparece, a imprensa publica e os modernos meios de comunicação faz com que logo fiquemos sabendo.

4.    Ilustro isso com um exemplo religioso, contado por um amigo: Um jovem jornalista tinha uma intensa sede de procurar a verdade e a pureza pela via místico-religiosa. Depois de muitas andanças e pesquisas ele se convenceu de que a perfeição espiritual estava no budismo tibetano. Foi tão sincero e radical nas suas opções que ingressou como monge num mosteiro no norte da Índia, perto do Dalai Lama. Cerca de dois anos depois voltou decepcionado contando histórias nada edificantes da vida nestes mosteiros e da hierarquia religiosa budista. Todas as religiões têm seus armários fechados que, quando abertos, fedem. Para mim isso não as desmerece e nem as invalida, apenas expressa uma realidade existencial. Encaro o campo político mais ou menos da mesma maneira.

5.    Defronto-me em quase todos os debates políticos com a incapacidade de abstração. Na maioria das vezes as pessoas ficam amarradas apenas nos fatos e a conversa não passa de uma sucessão de historinhas. Por exemplo, quando se fala do mensalão petista (ou raramente no do peessedebista). Se ficarmos só na questão de quem roubou, quem mentiu e quem pagou patinaremos como Sísifo na lama dos fatos. É preciso transcender o imediatismo dos acontecimentos, procurar saber como se dá o jogo político, conhecer um pouco do mecanismo das instituições partidárias, da história do Brasil, analisar os interesses em jogo e procurar ver além das aparências. É muito complicado explicar isso para alguém porque é mais uma questão de prática.

6.    Às vezes um interlocutor tem boa capacidade de expressão verbal, mas é falacioso. Essa palavra, FALÁCIA, é um termo filosófico que vem do verbo latino fallere, que significa enganar. É um raciocínio errado com aparência de verdadeiro. Reconhecer as falácias é por vezes difícil. Os argumentos falaciosos podem ter para quem os usa validade emocional, íntima, psicológica, mas não validade lógica. As falácias que são produzidas com a finalidade de confundir ou enganar alguém numa discussão chamam se SOFISMAS e conheço gente com muita competência para fazer isso.

7.    Outra coisa que me irrita nas ponderações políticas é a eterna e abrangente presença do udenismo. Vou explicar: O udenismo caracterizou-se no Brasil pela defesa do liberalismo clássico e do moralismo e pela oposição ao populismo. A UDN detinha forte apoio das classes médias urbanas e de alguns setores da elite. Os seguidores dessa corrente política estão sempre a clamar por moralismo na política (e não moralidade), a dizer que está tudo errado e que precisamos de uma mão forte, um líder autoritário e competente que coloque a casa em ordem. Os dois maiores exemplos políticos de udenismo no Brasil foram Jânio Quadros e Fernando Collor de Melo, mesmo não sendo filiados à UDN. Foram eleitos com um discurso que realçava a necessidade de uma limpeza geral na sujeira que infestava o Brasil. Jânio Quadros usava a vassoura como símbolo da ação necessária e Fernando Collor chegou a dizer que tinha o saco roxo, ou seja, não tinha medo de nada e era macho para caçar os marajás. Ambos os governos terminaram em tragédia política.

8.    Outra coisa irritante é o boatismo. De repente, sem  mais nem menos, aparece num site, num email ou numa conversa de amigos uma afirmação sobre determinado político. Só que estas afirmações são dadas sem que se saiba de onde vieram e nem tem como ser comprovadas. Alguns boatos sobre políticos que já ouvi várias vezes, e que me foram repassados seguramente como verdades:
 
A.    A família do Serra é dona dos maiores laboratórios do Brasil.
 
B.    A Dilma se fosse eleita seria proibida de entrar nos EUA.
 
C.    A família do falecido Mário Covas é dona dos pedágios do Estado de São Paulo.
 
D.   O filho do Lula é o maior fazendeiro de Mato Grosso e está milionário.
 
Não estou dizendo que estas coisas sejam verdade ou mentira, mas caso as afirmasse publicamente e um dos acima citados me processasse por calúnia e difamação  eu não teria como me defender, pois não tenho como conferir essas afirmações.

9.    Existe um desconhecimento quase geral sobre as funções do executivo e do legislativo. Canso de ouvir pessoas falando de vereadores, deputados e senadores  que construíram isso, reformaram aquilo ou idealizaram alguma tipo de obra. Isso não é função deles, mas dos executivos. Voto num determinado legislador há várias eleições justamente porque ele não faz nada disso. Entretanto, seu trabalho legislativo é primoroso. Ele está presente em todos os debates que importam, seus pareceres são justos e objetivos, suas intervenções tanto em plenário quanto em questões públicas mais abrangentes são consistentes e muito bem fundamentadas e suas causas são bem próximas das que defendo. Quem tem de asfaltar, construir, reformar e contratar são os prefeitos, governadores e presidentes.

10. Se você teve paciência de me acompanhar até aqui, ilustro de uma maneira mais prática o que estou dizendo. Saiu na FOLHA DE SÃO PAULO de hoje um artigo onde o autor, depois de conversar com uma porção de empresários, teve uma percepção com a qual me identifiquei. Reproduzo-o abaixo e assim termino por ora essas reflexões:
 
O AMIENTE NÃO ESTÁ BOM
 
Artigo de Vinícius Torres Freire publicado na FOLHA DE SÃO PAULO de 21/05/2014
 
Final da tarde de ontem em São Paulo, fim de entrevista com dois empresários. Um deles olha no celular as notícias do dia, mais preocupado em saber do trânsito de um dia de greve de motoristas de ônibus e passeata de professores municipais em greve.
 
"A PF fez uma limpa no governo do Mato Grosso, esse juiz [ministro do Supremo] não se decide com essa história de doleiros, esta cidade está uma baderna, cadê o prefeito? Não diz aqui se vai ter essa greve da polícia", recita um empresário, uns 60 anos. "Quem se anima com esse país? Vai ser difícil vender e fazer negócio com essa bagunça e esses feriados da Copa. O clima 'tá' ruim", diz o empresário.
 
Depois de quase uma semana e meia de conversa com empresários e executivos de setores variados, não aparece nenhum denominador comum novo nas explicações sobre o desânimo crescente na categoria e sobre o esfriamento dos negócios desde o começo do ano.
 
Há queixas genéricas e habituais contra o governo federal, "custo Brasil", "burocracia para fazer qualquer coisa, licença que atrasa" na agência reguladora "x" ou "y". Nenhum relato de situação crítica ou colapso. Ao contrário, aliás. Apesar da "macroeconomia ruim" (crítica à política econômica), não é raro ouvir que no médio prazo o país "tem tudo para melhorar", devido ao mercado "grande e crescente".
 
No mais, de mais recorrente, uma insatisfação "difusa", como se dizia da "pauta" das manifestações maiores de junho do ano passado. Uma queixa meio vaga e pantanosa de que o "ambiente não está bom".
 
Se a conversa é com a indústria, muita gente volta a reclamar sem muita ênfase do "câmbio". A situação "tinha melhorado", com o dólar mais caro, "mas voltou a ficar barato e varia demais, a gente não sabe a que preço vai fechar negócio". Mais dinheiro do BNDES, a taxa de juros abaixo de zero, "também estava ajudando".
 
Na verdade, não houve grande mudança em relação a câmbio ou dinheiro farto e barato do BNDES. Mas o "ambiente não está bom" e teria piorado desde março.
 
Empresários de setores diversos citam as ameaças de desemprego na indústria automobilística, setores que apanham das importações, dos "esqueletos dos shoppings", como um deles se refere aos centros comerciais novos que não conseguem alugar suas lojas.
 
"A construção [empreendimentos imobiliários comerciais] deve tomar um tombo este ano. Está sobrando espaço [escritórios, lojas, galpões]. O pessoal se animou demais coisa de dois anos atrás", diz alguém do ramo, mas residencial.
 
Mas é raro ouvir de alguém que a empresa ou o setor deles vai demitir em breve: "Estamos nos mantendo. Nem sobe nem desce. A dúvida é saber o quanto dura essa situação. O salário está alto, apareceu estoque de novo [produção que não foi vendida]", diz outro.
 
Os indicadores econômicos do ano confirmam o esfriamento do clima, em ritmo no entanto lento e gradual, na média dos setores: alguma estagnação do emprego (queda na indústria), setor de serviços esfriando, vendas de material de construção também.
 
Mas o desemprego é baixo e o consumo de varejo cresce a 4,5%. O ambiente, porém, não está bom. 
Fonte: Padre Pires

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