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Itapira, 13 de Junho de 2024
Artigo
02/06/2016 | Luiz Santos: Pés de bailarina

 “Amados, visto que temos essas promessas, purifiquemo-nos de tudo o que contamina o corpo e o espírito, aperfeiçoando a santidade no temor de Deus” (2 Co 7.1).

Esta semana enquanto eu “zapeava” a TV me deparei com um canal de arte e cultura que exibia um documentário sobre a vida dos integrantes do balé Bolshoi. Na falta de algo mais interessante, resolvi assistir o documentário, confesso que fiquei perplexo com o que vi. A duríssima rotina de um bailarino de alto nível é coisa para poucos. São horas intermináveis de exercícios físicos para condicionamento, torneamento e tonificação muscular, alongamento e claro, sem falar nos movimentos que são repetidos à exaustão. Mais tarde, dias incansáveis de ensaios da coreografia, as cenas são repetidas com tanta perfeição, que um leigo como eu tem até a sensação de estar assistindo a uma cena eternamente rebobinada. O resultado de tanto esforço, de tanta dedicação e de tanto sacrifício pessoal, é aquele que assistimos quando as cortinas sobem pelos palcos do mundo. Um encanto, uma magia, os corpos parecem levitar de tanta graça e beleza e os movimentos conduzem a nossa imaginação trama a dentro. Após a apresentação do Balé Bolshoi em Praga, na República Checa, os documentaristas foram até os camarins para mostrar aquilo que raramente é visto pelo público, as marcas físicas de tanto esforço. Os pés de uma bailarina não refletem em nada a graciosidade de seu corpo definido e belamente modelado. Os pés são “deformados”, calos, hematomas e até algumas lesões com sangue são perceptíveis. De pronto fui conduzido a uma outra realidade que demanda igual dedicação e esforço, mas infelizmente pouco disso se pode testemunhar. Falo do discipulado cristão. Falo daquelas coisas a que os cristãos estão ordenados a fazer e que nem sempre obedecem. Um dos aspectos da Grande Comissão dizia respeito a “ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado” (Mt 28. 20 a). Dallas Willard chama a nossa atenção ao afirmar que esta é a parte da ordem dada por Jesus que podemos chamar de a Grande Omissão. Tornar-se discípulo de Jesus e andar como Ele andou ou seguir as suas pisaduras, como fala Pedro em sua epístola, significa viver como Jesus nos bastidores da vida, quando o local destinado à plateia está vazio e as cortinas fechadas, isto é, viver na “sequela Christi” dentro do ordinário da vida e dando atenção ao que o próprio Jesus fazia. Quando vemos Jesus Cristo andando sobre as águas, repreendendo o vento, expulsando demônios, multiplicando pães e peixes e falando Palavras cheias de graça e de verdade, podemos ser tentados a “magiar” estas verdades e simplesmente ignorar que Jesus, em sua humanidade, em sua corporeidade, viveu uma vida disciplinada. Jesus cultivou as principais disciplinas espirituais que não só condicionam a nossa espiritualidade, domam a nossa vontade e educam os nossos sentimentos, mas também subjuga o corpo e ensina a obediência: “Durante os seus dias de vida na terra, Jesus ofereceu orações e súplicas, em alta voz e com lágrimas, àquele que o podia salvar da morte, sendo ouvido por causa da sua reverente submissão. Embora sendo Filho, ele aprendeu a obedecer por meio daquilo que sofreu” (Hb 5.7,8). E quais são essas disciplinas que Jesus observou e que de fato, deixou-nos como exemplo a ser imitado para o nosso aperfeiçoamento espiritual? Pelo menos essas que os evangelistas narram: Jesus cultivava o silêncio e a solidão para intimidade e colóquio com Deus: Mt 14.13; Retirava-se para orar ainda antes da aurora: Mc 1.35; jejuava: Mt 4.2; costumeiramete frequentava a Sinagoga e lia as Escrituras: Mc 1.21 e Lc 4. 16; sem falar na voluntária obediência aos seus pais: Lc 2.21. De tudo isso podemos aprender que ninguém irá longe no discipulado cristão, ninguém crescerá na Graça e no conhecimento e tão pouco poderá resistir às tentações e progredir no caminho da santificação se tudo o que realizar não passar de uma vida sob os holofotes. Ou seja, se toda a sua caminhada cristã se resumir ou nas reuniões públicas e formais da congregação ou em uma piedade ‘pasteurizada’ com momentos rápidos, fugazes e superficiais nas devocionais diárias. Assim como todo grande bailarino submete-se a uma rotina disciplinada e exaustiva de terinos e ensaios, como todo atleta de alto nível se sacrifica em longas e disciplinadas rotinas para chegar próximo à perfeição, também a vida cristã, o discipulado, a espiritualidade também deve ser disciplinada, submentida às orientações e impulsos da graça, centradas no evangelho, promovidas pelo amor a Deus e ao próximo e abundante em obras de justiça e caridade. Mas é preciso disciplinar e cultivar as disciplinas espirituais, se Jesus submeteu-se numa vida de intensa disciplina, porque nós daríamos qualquer desculpa para viver confortável e relaxadamente? Não se trata de obter a salvação por meio dessas disciplinas, mas desenvolvê-la por meio delas na santificação e na semelhança com Cristo: Fp 2.12.
Luiz Fernando é ministro da Igreja Presbiteriana Central de Itapira, professor de Teologia Pastora e Bioética no Seminário Presbiteriano do Sul, de Filosofia na Faculdade Internacional de Teologia Reformada – Fitref e de História das Missões no Perspectivas Brasil.
 
Fonte: Luiz Santos

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