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Itapira, 05 de Dezembro de 2020
Notícia
19/10/2020 | Luiz Santos: A Reforma e a Igreja local

Estamos refletindo em nossas pastorais neste mês de outubro sobre os quinhentos e três anos da Reforma Protestante. Outra contribuição muito relevante dos reformadores foi a redescoberta da necessidade de se pertencer a uma comunidade eclesial concreta e viver uma vida de mutualidade dos dons em amor. A igreja local para os reformadores era o lugar por excelência para se fazer a experiência da salvação. Os nossos pais compreenderam a frase de Cipriano de maneira perfeita: Extra Eclesiam Nulla Salus! (Fora da igreja não há salvação). Junto com Cipriano eles entendiam que a igreja é tanto o instrumento, o meio, quanto o lugar para se experimentar os dons salvíficos de Cristo. A igreja não salva, somente Cristo salva mediante o Evangelho. E, a igreja, é a responsável tanto pelo anúncio deste Evangelho, como o lugar onde o desenvolvimento dos efeitos desse anúncio acontece. Calvino não hesitava e com Agostinho ensinava: ‘Ninguém ouse chamar a Deus de Pai se não tiver a igreja como sua mãe’. Assim, é difícil pensar que os reformadores em algum momento advogaram uma experiência de Deus somente pela leitura das Escrituras sem qualquer dependência ou cultivo de uma vida regular e saudável na igreja. Na verdade, esses brilhantes teólogos ensinavam que o resultado mais visível e imediato da salvação na pregação do Evangelho é a entrada na Igreja. Somos salvos para ser igreja, para estar na igreja, para fazer a igreja acontecer. Além das imagens bíblicas sobre a igreja amplamente exploradas e ensinadas em seus sermões, estudos e catecismos daqueles dias, como:  lavoura, rebanho, corpo, edifício, vinha, família, santuário, outras imagens foram igualmente apresentadas para realçar a necessidade e a beleza da vida na comunhão dos santos. A primeira figura é a da mãe. Mãe porque além de gerar filhos para luz, imagem amplamente utilizada para falar do batismo, da pia batismal, da gestação da fé no anúncio e no discipulado, essa imagem também dizia respeito à solicitude materna da igreja em proteger das intempéries da vida, cuidar para que não se percam os filhos de Deus nas estradas do mundo, amparar nos tropeços e quedas, ensinar o ‘beabá’ da fé e de maneira especial nutrir pelo sacramento e pela doutrina, até que todos cheguem à maturidade, a plena conformação com Cristo. A igreja também era apresentada como um berçário, o berçário da piedade e das virtudes. O habitat natural para o desenvolvimento das afeições religiosas, dos piedosos afetos para com Deus, do treinamento do coração para desejar e se apegar às coisas do alto, onde Cristo está. Pela solenidade do culto, gravidade e peso da palavra e o cultivo das virtudes teologais (fé, amor e esperança) e das virtudes cardeais (prudência, temperança, fortaleza e justiça), chega-se àquele modo de vida que agrada a Deus e tem nele o seu prazer. Os reformadores viam a igreja como um celeiro de santas vocações. Um lugar apropriado para se cultivar e desenvolver os dons espirituais e os talentos naturais (também outorgados pelo Espírito Santo), com a correta destinação dos mesmos, glorificar a Deus, edificar os irmãos, servir e testemunhar aos incrédulos e dar satisfação a alma do crente no exercício dos mesmos. Uma última imagem que eu gostaria de apresentar aqui é a da ‘antessala do céu’. Em muitos sermões os reformadores se referiam à igreja local como aquele lugar imediatamente anterior à visão beatífica. Uma espécie de antecâmara da vida eterna. Um local onde o crente vai se ambientando com o clima, a temperatura e à vida própria na presença de Deus, seus anjos e seus santos. Assim, tudo o que a igreja tem a oferecer é uma espécie de estágio, de aprimoramento de nossa vida para as indizíveis realidades da cidade celestial. Não é tanto um tempo de prova, mas um agradável tempo de aclimatação às novas e superiores condições de vida nas moradas celestes. Esta visão positiva e grandiosa da igreja nada tem de romântico ou utópico, se essas não forem também as nossas imagens e as nossas experiências, temos falhado e muito em nossa compreensão do Evangelho. A igreja parece passar por uma crise de crédito junto a boa parcela dos que se dizem cristãos. Não falo apenas dos assim chamados ‘desigrejados’, mas falo também de muitos que embora não rompam definitivamente com a vida e a dinâmica da igreja, dão tão pouco valor a ela que vivem como se a igreja não importasse, no fim das contas, para a sua felicidade. O nosso século vinte e um que viu surgir a igreja terapêutica, a igreja entretenimento, a igreja tipo clube de serviço e, nos casos mais infelizes, a igreja ‘destrói reputação’, precisa recuperar com certa urgência essa real experiência de ser igreja ‘auditório do Espírito Santo’. Um lugar para se sentir acolhido e desejado como no colo da mãe. Um lugar para receber sólido alimento espiritual e doutrinário. Um contexto ideal para o desenvolvimento da santidade, da devoção para com Deus, o fruto do Espírito e o amor pelos irmãos. Um lugar tão deleitável e desejável, que nos faça ansiar ainda mais pelas realidades do mundo por vir, não por desespero, mas pelo anelo do coração.

Reverendo Luiz Fernando dos Santos

Fonte: Luiz Santos

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