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Itapira, 26 de Maio de 2022
Notícia
07/03/2022 | Luiz Santos: Eu olho para a cruz

O título desta pastoral foi inspirado em uma canção que fez sucesso nos arraiais evangélicos. Ainda que um ou outro reparo de natureza teológica possa ser feito, é inegável que a melodia e mesmo a letra, torna a canção inspirativa e emocionante. Agostinho interpretou o Salmo 121 “Elevo os meus olhos para os montes”, fazendo uma aplicação cristocêntrica, como o olhar da igreja para o calvário, divisando a cruz de Cristo como horizonte espiritual para onde tende a vida da igreja e do cristão em sua identificação e conformidade com o Senhor. O tempo quaresmal, o que estamos observando no calendário litúrgico, é esse olhar distante e ao mesmo tempo em aproximação na medida em que os dias correm, para a contemplação dos eventos redentores do Calvário e mais ainda, aquele estupendo evento do túmulo vazio. A cruz significou o ato libertador de Deus que em Cristo, nosso cordeiro pascal, nos resgatou das mãos de Satanás, coisa prefigurada e acontecida com Israel nos eventos registrados no Livro do Êxodo. Assim, a Páscoa que os cristãos celebram possui raízes profundas e bem arraigadas no Antigo Testamento e é sempre a comemoração de uma libertação. Lá, na primeira Aliança, a saída (êxodo) da casa da escravidão, do látego do capataz, do jugo cruel do Faraó. Aqui, na Nova e Eterna Aliança, a saída deste mundo mal e do inferno, do pecado e da iniquidade, das garras do Diabo. Lá, após a peregrinação, deu-se a entrada na ‘Terra Prometida’, onde corriam leite e mel. Aqui, entramos na Canaã celestial, terra onde justiça e paz se abraçam e onde a sabedoria enche a terra como as águas cobrem o mar. Contudo, assim como fazem os judeus que de certa maneira fazem da Páscoa uma ocasião para ler e responder a cada época, esperando a intervenção divina para a libertação do povo das marcas de opressão e alienação ainda presentes, nós cristãos podemos e devemos agir assim na preparação e na efetiva celebração dos eventos pascais. Vivemos sob a opressão e a tirania da cultura da morte. Não bastasse o flagelo da Covid-19, ainda estamos atônitos com a insana guerra na Ucrânia (enquanto escrevo essa pastoral espero em Deus que até a sua publicação já tenha cessado fogo definitivamente), e o pavor de uma iminente guerra nuclear. E mesmo que a Ucrânia e a Rússia pareçam tão distantes de nós, estamos imersos todos os dias em outras pequenas guerras, fruto da depravação presente no coração do homem. O surto descontrolado da violência doméstica, o feminicídio crônico, a peste do abuso sexual infantil, a pandemia das drogas e a crise sanitária e humanitária da fome e da miséria estão onipresentes em nossa sociedade. Vivemos em um contexto de continuada opressão e não raras vezes, porque pecadores, também somos pequenos faraós, opressores em nosso microcosmos social e verdadeiros déspotas das redes sociais. Tudo reclama e aponta para a necessidade de uma profunda libertação, de vivermos bem o espírito pascal. Entre os judeus a Páscoa é preparada com um rito chamado “Chametz”, o rito doméstico de se jogar fora o fermento velho. Paulo, fiel à sua tradição, recomendou o mesmo aos cristãos: “O orgulho de vocês não é bom. Vocês não sabem que um pouco de fermento faz toda a massa ficar fermentada? Livrem-se do fermento velho, para que sejam massa nova e sem fermento, como realmente são. Pois Cristo, nosso Cordeiro pascal, foi sacrificado. Por isso, celebremos a festa, não com o fermento velho, nem com o fermento da maldade e da perversidade, mas com os pães sem fermento da sinceridade e da verdade” (1 Co 5.6-8). Esse tempo quaresmal possui uma solene convocação nesse sentido, ao abandono do velho fermento, o orgulho, o egoísmo, a hipocrisia, as pequenas violências verbais, a acidez e o veneno nos comentários e os gestos intimidatórios e, sobretudo, aqueles que se traduzem em violências físicas e na supressão do amor e da justiça. Para bem celebrarmos a festa com os “ázimos” da pureza, da sinceridade e da verdade, precisamos vasculhar cada canto do nosso coração e encontrando o que está azedo, elevar os olhos para os montes e levar tudo ao encontro da cruz. A Covid-19, a guerra na Ucrânia, a violência perto e dentro de nós, nos lembram dessa suprema necessidade que temos de um libertador, de alguém que nos tire de nossas opressões, que nos conduza em peregrinação à ‘Terra Prometida’, que coloque em nossos lábios uma nova canção e transforme as nossas armas de guerra em arado: “Ele julgará entre as nações e resolverá contendas de muitos povos. Eles farão de suas espadas arados, e de suas lanças foices. Uma nação não mais pegará em armas para atacar outra nação, elas jamais tornarão a preparar-se para a guerra” (Is 2.4), para o bem e a manutenção da vida. Tempos de guerra nos forçam a lembrar o Evangelho: “Bem-aventurados os pacificadores, pois serão chamados filhos de Deus” (Mt 5.9). Preparemo-nos para a Páscoa com os olhos elevados para o monte, caminhemos pressurosos para a festa despindo-nos do velho fermento da maldade e convidando a todos para a saudação da ressurreição: “Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: "Paz seja com vocês" (Jo 20.19).

Reverendo Luiz Fernando é Ministro Presbiteriano em Itapira.

Fonte: Luiz Santos

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